Cultura
| Divulgar todos os géneros de representação da cultura portuguesa na Catalunha é o objectivo desta secção. A actividade cultural portuguesa nesta Comunidade Autónoma é intensa e cobre todos os aspectos do mundo das arte: exposições, concertos, conferências, mostras, espectáculos e intercâmbios culturais. |
![]() No próximo dia 29 de junho e 2 de julho o pianista Edgar Cardoso oferecerá dois concertos no MEAM (Museu Europeu de Arte Moderno) a solo como parte da apresentação de várias obras portuguesas. No concerto do dia 29 de junho ira apresentar as obras do compositor portuense do séc. XIX Miguel Ângelo Pereira. E no concerto de 2 de julho apresentará as obras do pianista-jazz e compositor contemporâneo António Pinho Vargas. Antes de Espanha existir como tal, já Portugal e o Condado de Barcelona — génese da Catalunha moderna e integrada desde o século XII numa união dinástica com a Coroa de Aragão — eram entidades políticas definidas com relações entre si. Como povos peninsulares, com vocação marítima e comercial, portugueses e catalães tiveram, desde então, inúmeras oportunidades de se contactarem e de conhecerem. Todavia, ao longo dos séculos, esses contactos tiveram, de uma forma geral, um carácter episódico e superficial. Desde logo, por razões de ordem geopolítica. Não se trata apenas de Portugal e a Catalunha estarem separadas pela grande planície de Castela mas também, e quase diria sobretudo, de olharem em direcções opostas, a Catalunha para o Mediterrâneo e Portugal para o Atlântico. Depois, porque, a partir do momento em que a Espanha se formou, e inclusivamente durante o período filipino da união dinástica, entre 1580 e 1640, era através das Cortes que se estruturavam essas relações, o que não contribuía para aproximar os dois extremos da Península.
Por isso, mais do que um fio condutor que dê coerência e sentido a estas relações, é a acção de determinados personagens, no âmbito da política, das letras ou dos negócios, ou certos episódios mais ou menos fortuitos, que perduram na memória histórica como exemplos dos laços entre Portugal e a Catalunha. Na Idade Média[1], uma breve enumeração começaria, no século XIII, pela história do infante D. Pedro, irmão de Afonso II, que casou com a Condessa de Urgel, Aurembiax, e dela recebeu em herança este condado, o qual posteriormente trocou pelo senhorio de Maiorca e Minorca, com o título de Rei, abdicando por fim destas duas ilhas a favor de várias terras e fortalezas conquistadas no reino de Valência . Episódio mais conhecido é o do casamento de D. Dinis com Isabel de Aragão, filha de Pere II da Catalunha, que foi impulsionado pelo rei português para firmar aliança com Aragão contra os desígnios de Afonso X de Castela. Santa Isabel, como ficou conhecida na história de Portugal, foi rainha consorte de Portugal durante 43 anos, entre 1282 e 1325, vindo a falecer 11 anos depois em 1336. Na mesma linha de aproximação entre as duas casas reais, inclui-se também o casamento de D. Pedro IV de Aragão, dito o Cerimonioso, com a infanta Leonor em 1347, filha de Afonso IV, que morreu um ano depois vítima da peste negra. A inflexão da política aragonesa no sentido de uma reaproximação com Castela, levada a cabo por D. João II de Aragão, e que culminaria no casamento dos Reis Católicos, está na origem de um último episódio, o reinado do Condestável D. Pedro na Catalunha entre 1464 e 1466, proclamado com o título Conde de Barcelona e Rei de Aragão (D. Pedro V) pelo Conselho dos Cem. O trono fora-lhe oferecido pelos catalães, sublevados contra a politica de D. João II. Mas o rei português não foi feliz nas batalhas que travou contra as forças leais a D. João II e, após ser derrotado em Calaf e em Cervera, acabou por morrer em Granollers, estando sepultado em Barcelona na igreja de Santa Maria do Mar. Nesta segunda metade do século XV, a expansão marítima de Portugal parece ter atraído as atenções de alguns homens de negócio catalães, pois há notícias da presença cada vez mais frequente de mercadores catalães nos portos portugueses. No período áureo da monarquia espanhola, que se inicia com o casamento dos Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão e termina com a restauração da independência de Portugal em 1640, o português mais ilustre com um papel de relevo na história catalã foi D. Francisco Manuel de Melo. Militar, diplomata e grande escritor, um dos maiores do século XVII português, participou na Guerra dos Segadors, tendo deixado uma obra de referência sobre esse conflito, ainda hoje de consulta obrigatória. A ligação entre esta guerra e a revolta encabeçada pelo Duque de Bragança, que conduziria à Restauração em 1 de Dezembro de 1640, são assuntos amplamente tratados na historiografia dos povos peninsulares. A importância decisiva que a revolta na Catalunha teve para o êxito da Restauração é reconhecida na historiografia portuguesa. Aliás, segundo o conde da Ericeira, autor da obra canónica sobre este período, que data do século XVII, as ordens do Conde Duque de Olivares à nobreza portuguesa para participar na guerra da Catalunha foram a causa próxima que levou o Duque de Bragança, futuro D. João IV, a resolver-se a assumir a chefia da revolta. A prioridade atribuída por Filipe IV ao controlo da revolta na Catalunha foi também decisiva para aliviar a pressão militar sobre Portugal após o 1 de Dezembro[2]. Uma vez selado o destino de Portugal e da Catalunha no âmbito peninsular e europeu — o de Portugal pela recuperação da independência e o da Catalunha pela sua inserção no reino de Espanha — foram menores as oportunidades de contacto. Apenas no século XIX, com a difusão das ideias liberais e do nacionalismo, se forjaram de novo laços importantes entre portugueses e catalães, de natureza essencialmente intelectual, em torno dos ideais e dos projectos iberistas. Foi a partir da Catalunha, desejosa de reconstruir o Estado espanhol numa base federal e carente de um aliado peninsular que pudesse equilibrar o peso de Castela, que surgiram as primeiras propostas iberistas. Estas propostas suscitaram um vasto debate em Portugal, que se prolongou dos finais do século XIX até aos inícios do século XX, cujos contornos são delineados com precisão nos artigos de Maria da Conceição Meireles e de Fernando Catroga. Dir-se-ia contudo que em Portugal, os debates sobre o iberismo acabaram por consolidar o ideário nacionalista. Na época mais recente, foi também através da literatura que se geraram contactos frutíferos e intensos entre portugueses e catalães. A acção de alguns intelectuais catalães é justamente destacada em alguns artigos deste livro[3]. De todos o mais importante terá sido o lusitanista Ribera i Rovira, amigo pessoal de tantos escritores e intelectuais portugueses, amizade amplamente testemunhada pelas inúmeras dedicatórias nos livros da sua biblioteca pessoal doada ao Consulado Geral de Portugal em Barcelona. Entre esses livros, encontram-se algumas preciosidades, como um dos primeiros livros do poeta Mário de Sá Carneiro com uma dedicatória datada de 7 de Setembro de 1914. Sabe-se que Sá Carneiro, fugido de Paris por causa da eclosão da guerra, passou algumas semanas em Barcelona, pois há registo de postais que enviou em Agosto a Fernando Pessoa, com comentários sobre a construção da Sagrada Família. Um breve inventário teria também de incluir a edição de “Os Poetas Lusíadas”, a série de conferências proferidas por Teixeira de Pascoaes em Junho de 1919, no Instituto d’Estudis Catalans, a convite de Eugeni d’Ors, e ainda os livros autografados por Raul Brandão, José Maria d’Eça de Queiroz, o filho do grande escritor, António Ferro, ou Teófilo Braga Já na época contemporânea, no período das ditaduras, alguns portugueses que se fixaram em Barcelona tiveram um papel importante. Refiro, em particular, a figura do intelectual português Manuel Seabra, cuja obra de escritor, ensaísta e tradutor exerceu uma influência importante na aproximação entre portugueses e catalães. Mas nem só de literatura vive o homem. Outro dos factores que desde sempre aproximou portugueses e catalães foi naturalmente o comércio. Um dos traços que partilhamos é o facto de sermos ambos países de larga tradição vinícola. Como grande produtor de cortiça, Portugal atraiu desde o século XIX a atenção de alguns empresários catalães que foram pioneiros no desenvolvimento da industria corticeira em Portugal, no Alentejo e no Algarve, como demonstra um estudo recente sobre a matéria[4]. Contudo, foi a instauração da democracia, a criação do Estado das autonomias, devolvendo à Catalunha uma importante margem de acção própria e, em muito especialmente, a adesão de Portugal e Espanha às Comunidades Europeias, em 1986 que proporcionaram uma alteração qualitativa nas relações de Portugal com a Catalunha. A solidariedade ideológica entre os regimes de Salazar e de Franco nunca se traduzira numa verdadeira aproximação entre os dois países em termos económicos ou culturais. A politica externa portuguesa nesse período era ainda tributária de um preconceito anti-castelhano e orientava-se de forma praticamente exclusiva para a defesa das colónias. Nos primeiros anos após a instauração da democracia, esse afastamento perdurou. A integração dos dois Estados Ibéricos na Europa provocou uma verdadeira revolução nas relações peninsulares. A negociação dos Tratados de Adesão obrigou os dois países a resolverem os seus contenciosos bilaterais e integração na Europa aproximou-os em todos os sentidos — físico, com a melhoria na rede de transportes e comunicações, cultural, económico e politico. Ao proporcionar a liberdade de trocas e a liberdade de estabelecimento, a integração na Europa deu também um enorme impulso ao desenvolvimento das relações económicas, que só a crise desencadeada em 2008 tem momentaneamente travado. Para dar apenas um exemplo, a Espanha tornou-se o maior cliente de Portugal e Portugal o terceiro maior cliente espanhol. Estes desenvolvimentos tiveram uma grande repercussão no relacionamento entre Portugal e a Catalunha. Os empresários catalães foram dos primeiros a aperceberem-se das oportunidades que resultavam da adesão e a estabelecerem relações em Portugal. Em consequência, a Catalunha é hoje, de todas as Comunidades Autónomas espanholas, aquela com quem temos maiores relações económicas. Inevitavelmente, o desenvolvimento das trocas comerciais e dos investimentos repercutiu-se também noutras áreas, proporcionando um salto qualitativo na densidade e riqueza das relações luso-catalãs. Nunca como hoje foram tão intensas essas relações. Não é apenas o comércio, superior a cinco mil milhões de euros por ano, e o investimento recíproco; é também, o turismo, lubrificado pela existência de uma ponte aérea entre Barcelona e Lisboa e o Porto e, dentro de poucos anos, pela existência do AVE; é o interesse pela cultura portuguesa na Catalunha que se reflecte, por exemplo, no elevado número de autores portugueses publicados por editores catalães; é, também, a presença na Catalunha de um número crescente de portugueses — neste momento cerca de 20 000 — não apenas estudantes mas gente que procura aqui saídas profissionais em todas as áreas. À medida que as nossas relações com a Espanha se vão desenvolvendo, vai-se tornando clara a necessidade de Portugal lidar directamente com as diversas Comunidades Autónomas espanholas. O poder que efectivamente exercem e as competências de que dispõem tornam-nas interlocutores indispensáveis se Portugal quer tirar proveito de todo o potencial das suas relações com o país vizinho. As próprias Comunidades Autónomas dispõem também de uma capacidade, ainda que limitada, para a acção internacional, que cada vez mais exercem. No caso da Catalunha, as instituições de auto-governo que já dispõe são mais do que suficientes para promover um maior relacionamento com Portugal, por exemplo em áreas como a língua, a saúde ou a cooperação científica. Portugueses e espanhóis de costas voltadas um para o outro é um lugar comum que deixou de ser verdadeiro. Pelo contrário, estamos cada vez mais próximos. É importante, por isso, que nos conheçamos melhor – que os portugueses apreciem a Espanha na sua diversidade e os espanhóis Portugal na sua singularidade — e que tomemos consciência do muito que podemos ainda fazer em conjunto, tanto internamente como no plano internacional. [1] Sobre as relações neste período ver Dicionário de História de Portugal, ed. por Joel Serrão, pag. 173. |
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